<i>Goodbye, mr. Cheng</i>,<br> de Nuno Gomes dos Santos
Este livro de Nuno Gomes dos Santos, uma novela com muito para contar, e que nos convoca para a reflexão, urgente, sobre os caminhos da nossa actual literatura, estrutura-se nos limites de dois géneros considerados menores: o policial e a noveleta romântica, subvertendo, despreocupada e alegremente, ambos os géneros. Os tenazes guardiães da grande literatura deveriam estar mais atentos ao novo que, quase clandestinamente, é dado à estampa, ao invés de viverem fechados na redoma das suas certezas imutáveis. Tão acérrimos foram na guarda da coutada que deu no que deu: a quase ligthização da nossa literatura, o aparecimento impante e garboso, muito penacho e parra de papelão, da literatura de aeroporto, em tijolos medonhos e intransportáveis, que por aí se exibe em espaços bárbaros, para gáudio de Belmiros e seguidores.
Goodbay mister Cheng afirma-se como obra singular pela estranheza de não se render às leias dos caminhos feitos: é pelo gozo da linguagem, pela reinvenção de géneros, que este exercício literário de Nuno Gomes dos Santos vai, pelo prazer do jogo, essa capacidade de misturar géneros, de percorrer as margens do texto literário e de os subverter, driblar, baralhar e dar de novo, de construir o inesperado – ao nível da definição diegética, da linguagem, da interdisciplinaridade, de desbravar caminhos que se explanam pela plasticidade da língua, que a modelam nas raízes semânticas do falajar urbano – está presente na noveleta, Goodbye, mr. Cheng. Não é, obviamente, um policial, mas percorre as suas linhas suspensivas, a intriga estabelecida em doses derivantes até ao evidente desenlace final. Quisesse o autor e teria neste esboço matéria bastante para erguer um romance de intriga internacional ao modo epigramático de Graham Green, bastando-lhe seguir as coordenadas de uma certa realidade portuguesa, quando a direita que nos (des)governou se ocupou a entregar, sem evidentes rebuços ideológicos, o melhor naco das nossas empresas públicas ao capital chinês, público e privado. Nuno, ainda antes dos Papéis do Panamá se transformarem em mais um escândalo mediático, invade os territórios da usura virtual, de forma lúcida e desarmante, mas não vai por aí: limita-se, com uma boa dose de humor, dextro de língua e processos oficinais, tão no osso dos prodígios da fala que até parece fácil, a insinuar pistas, a apontar caminhos (cibernéticos q.b., que é modo hodierno de estabelecer as teias de mafiosos conluios), entregando ao leitor parte do puzzle para que este descodifique as regras que presidem ao grande embuste que o capitalismo, transnacional ou indígena, é. Mesmo que o senhor Fukuyama, também ele de origem oriental, ou aparentado, nos ande a dizer que o capitalismo é uma moral e de que, com ele, capitalismo, chegámos ao fim da história. Ou seja, estamos, se abrandarmos a vigilância e a luta, condenados a gramar com os Cheng, ou os Guo Guangchang – o tipo que comprou a pataco a Fidelidade e o Hospital da Luz –, e outros de igual calibre e origens várias, até ao fim dos séculos; a vivermos o capitalismo como processo de terror e esbulho permanentes.
O autor inscreve, de forma modelar, duas estórias que, em paralelo, vão evoluindo na diegese. Uma, contada a preceito (e é aqui que o para-policial se inscreve), variante ousada e paródica do conto do vigário, actualização da estória do vigésimo premiado, em versão capitalismo-rafeiro-da-era-digital, aproveitando a deixa para ir denunciando as grandes golpadas que o mundo do capital e da globalização imoral da usura vai construindo e encenando para se estabelecer e perpetuar, nas suas derivantes de rapina, como forma moral e lícita, sem alternativa, diz a direita cavernícola, no relacionamento impositivo entre os povos.
Outra estória
Nuno Gomes dos Santos vem construindo, nos seus dois últimos textos de prosa (a poesia é outro departamento) uma nova linguagem literária, um modo outro de dizer as perplexidades deste nosso tempo, de inventariar o vale tudo do sistema capitalista, que se ergueu e estabeleceu nas margens da legalidade e tenta, nos dias beatos e hipócritas que vivemos, alcandorar-se como valor absoluto e global.
Paralelamente ao texto que serve de esteiro à novela e lhe dá título, Nuno Gomes dos Santos investe numa outra estória, impregnando o discurso com as derivantes de um certo romantismo, que vem dos títulos de cordel, impregnando-o com o bisturi alacre e doce da contemporaneidade, numa visão sensorial atenta aos sinais exteriores e utilizando um léxico descomplexado e fluente, de extracção urbana, percorrendo as coordenadas da modernidade e do sentir hodierno: anos 90 bem medidos/corpo em câmara lenta/corações mais distraídos/ e matéria mais cinzenta, cantava o grupo Três Tristes Tigres, definindo mais que uma pose, um modo de ser de toda uma geração.
Ora, neste mundo pragmático, manhoso e cínico, o herói romântico da noveleta, Carlos de seu nome, é uma carta fora do baralho. O rapaz ainda acredita no amor, na paixão louca até à degradação total do amante, assim a modos como o pobre burguês Immanuel Rath perdido de amores pela bela e esquiva Lola, que Josef von Sternberg imortalizou no filme O Anjo Azul. E não será, por acaso (as coincidências na boa literatura não são puro acaso), que o processo mais extremado da decadência, moral e física, do pobre amante, tem lugar num bar de alterne um tanto chunga.
Assim o entendeu a amante de Carlos que, com os dotes da sedução no auge, ganhou do papalvo uma passeata a Paris. Margarida, que se derramava em ternura e cio, regressada da capital das luzes, deu com os saltos no trouxa de serviço, emalou pertences e pôs-se ao fresco para colo de novo amante e para mais quentes areias.
Carlos, apesar de Margarida zarpar para outros mares, guarda na memória esse período fugaz dos dias felizes e plenos de paixão vividos em Paris: os croissants inigualáveis do café de Flore, as galerias Laffayette o Printemps, os calissons, as baguettes, as românticas vielas de Montmartre, a Torre Eifell, os Champs Elisée. Ah!, Paris, Paris, das paixões lorpas regadas a beaujolais. O pequeno vai-se de brios, depressão danada, bebida e noitadas como ensinam as regras, e outros corpos (o da Marléne era de virar do avesso a cabeça de um homem, informação do escriba nas entrelinhas do texto sobre o chinês Cheng e suas trapaças) para que a dor suavize: itinerário consabido nestas coisas das dores da paixão. Mas há sempre piedosa alma na estrutura das estórias trágicas: por cada Messalina que nos espeta a faca onde mais dói, existe uma Lisete para cuidar das feridas. E a Lisete, colega e paciente, (o amor é um longo jogo de paciência) lá está para afastar as pedras, para salvar do existencial pântano (há palavras que não desgrudam do nosso imaginário) um Carlos desgraçado, Deus me perdoe – a fala é da rapariga, que tem ligação com o divino.
Tudo se compõe, como acontece nas novelas, na Corin Tellado, e neste notável livro do Nuno Gomes dos Santos que, soberano, se compraz em gozar com estimáveis géneros literários.
O autor vai beber aos modelos da sub-literatura para nos mostrar que é possível criar uma escrita empenhada e crítica e, paralelamente, inventar um outro modelo narrativo, outras parábolas para dizer o real e o reinventar segundo os códigos da literatura de cordel, atrelando o prazer do texto, como advogava Adorno, às questões do presente, ou seja, a desorientação das coisas, das pessoas e do mundo, como refere Baptista Bastos no texto introdutório.